Desgraça pouca é bobagem

Para começar o ano com o pé direito (e uma expressão clichê), um texto de nosso amigo mais LEGAL que felizmente decidiu que era hora de não seguir a onda e se tornar mais um jornalista apenas por comodidade. Querido Yuri Mor, nós do “alemdomuro”  sentiremos muito sua falta durante as aulas.

 drunk

 

Desgraça pouca é bobagem

 

– Você vai duvidar! – É a primeira coisa que ela diz quando me encontra. Está nervosa, gesticulando demais, mas não menos bonita. Ela sabe que eu vou realmente duvidar, e mesmo assim está preparando terreno para tentar me convencer. – Mas eu juro que não foi culpa minha.

Resmungo algo equivalente a vai falando, apóio meu cotovelo no balcão do bar, e espero pelo o que virá.

– Eu cheguei ontem da faculdade e nem almocei, só pra não me atrasar pro nosso encontro. Fui tomar banho, e adivinha? – Nem faço o esforço de tentar adivinhar, e ela recomeça. – Acabou a luz! E o pior é que eu estava toda ensaboada…

Ela pausa, e espera que eu tenha dó pela situação. Mantenho meu silêncio.

– Mas eu tomei banho gelado mesmo assim… Não queria chegar atrasada…

Outra pausa. Nenhuma reação de pena. Ela continua.

– Eu já estava vestida, penteada, e com aquele perfume que você gosta – Engano seu. Eu digo que gosto. – quando o telefone tocou. Era a Kátia… Sabe a Kátia, né? – É claro que eu sei a Kátia, né? Aquela sua melhor-amiga-vagabunda. – E ela estava cheia de problemas, coitada. Brigou com o namorado – Não tem importância, ela arranja um a cada semana. E se eu fosse você, se importaria com a sua briga com o namorado. – e eu não podia deixá-la na mão. Ela estava chorando tanto…

Ela quer o quê? Que eu tenha compaixão? Ela tem sorte de eu ter paciência. Enquanto ela faz o drama eu-só-estava-tentando-ajudar-minha-melhor-amiga, eu procuro o barman com os olhos. Não consigo passar por esta situação inteiramente sóbrio.

– E quando eu estava saindo de casa, começou a cair uma garoa. “Tudo bem”, pensei, “já vai passar”. Mas não passou, só piorou. Até eu chegar no ponto de ônibus, já estava toda encharcada. E não dava mais tempo pra voltar…

O barman olha para mim, esboça um sorriso e acena com a cabeça, informando que já vem me atender.

–… E o ônibus demorou tanto pra chegar, pelo menos eu não poderia ficar mais molhada.

Ela está seriamente querendo bancar a sofredora, afinal.

– Peguei o primeiro que passou, e perguntei pro motorista se passava perto do trem. Ele disse… Pára de olhar pra mim desse jeito!

– Ele disse isso pra você? – Pergunto com um cinismo incontrolável. Sei que ela se refere a mim, mas já que tenho que passar por isso, que seja ruim para os dois.

– Não! Eu estou falando pra você! Precisa ficar com essa sobrancelha levantada? Se você não acredita em mim, eu não posso fazer nada… – Ela fica irritada: ponto para mim!

– Continua falando. – Disfarço o sorriso.

– Então… Ele disse que passava. O ônibus estava lotado, e o único lugar que dava pra ficar, era embaixo de uma goteira, é claro!

– Ônibus tem goteira? – Pergunto, dessa vez, sem sarcasmo. A imagem de um balde no piso de um ônibus sob um furo no teto me vem à mente.

– Eu sei lá, mas aquele tinha! E pra ajudar, estava um trânsito infernal. Eu já estava dentro daquela banheira tinha mais de uma hora, e foi aí que eu fui pegar meu celular na bolsa pra te ligar, e avisar que eu ia atrasar, mas ele não estava lá! Meu Deus, eu perdi meu celular! Ou pior: eu fui roubada! Na hora eu pensei em como eu queria ter você do meu lado, por que você sempre sabe o que fazer.

Agora ela quer inflar meu ego?

– Mas você nem deve ter me ligado. Porque, se tivesse, teria notado que eu não atendia, e saberia que alguma coisa estava errada.

Agora ela quer me fazer sentir culpado?

– No desespero, eu comecei a olhar pra todo lugar, vendo se não tinha caído no chão, ou se alguém tinha pegado, e foi quando eu vi um cara me encarando! “Deve ter sido ele”, eu pensei… E ele não parava de me olhar. Eu comecei a ficar com medo, “será que ele quer mais alguma coisa?”. E o pior, ele começou a chegar mais perto. Sem saber o que fazer, eu dei sinal pra parar, e desci no próximo ponto! Você acredita que ele desceu também?

“Cacete, cadê esse barman?”

– Eu comecei a andar, e ele estava me seguindo. Quando eu pensei em começar a correr, eu escorrego e caio numa poça… Ah, você não vai acreditar – Se ela diz que eu não vou acreditar, por que ainda insiste em me contar? – Ele chegou, me ajudou a levantar, e perguntou “você não é a amiga da Kátia?”. Ele era o ex dela… Nem reconheci. Era o Fernandinho, lembra?

– Aquele alto de bigode?

– Não.

– O loiro com o dente torto?

– Não…

– O moto boy que foi preso por assaltar o mercadinho?

Não!

Lembro que eu não a chamo de vagabunda sem motivos.

– Então quem é?

– Aquele que mora na rua de cima da minha casa. Lembrou?

Não, não lembro, mas sei quem é.

– Ele pediu pra mim convencer a Kátia a voltar com ele.

“Pra mim convencer”?

– Ele pediu pra eu convencer a Kátia… – Corrijo.

– Pediu pra você, também? Nossa, ele devia estar desesperado!

– Não, é que… – Não vale à pena a explicação. Suspiro. – Continua…

– Depois, eu parei e pensei “eu estou molhada e toda suja de lama, tão atrasada que nem vou chegar a tempo de encontrar ele, e sem celular pra poder avisar”. Então preferi voltar pra casa e tomar um banho quente. Eu sabia que você iria duvidar, mas eu também sabia que você iria entender. Não queria que você fosse visto com alguém toda suja, porque você sabe que eu te amo, não sabe?

Ela me olha com aquele olhar que toda mulher sabe fazer quando quer alguma coisa.

– E o sexo foi antes ou depois do banho quente? – Pergunto como quem fala “como foi seu dia?”. Ela abre a boca, mas nenhuma palavra sai. – Você tem razão, eu duvido de muitas das coisas que você disse, mas de outras eu tenho certeza de que não aconteceram.

– Do que… que você ta falando? – Como eu queria fotografar essa expressão em seu rosto.

– Primeiramente, eu tenho certeza de que você não foi roubada, porque seu celular estava embaixo do banco do meu carro. Você deve ter deixado cair, e nem percebeu. E, como eu te liguei várias vezes ontem, em uma dessas ligações eu ouvi o toque vindo de dentro do carro.

Ela sua frio, enquanto eu tiro o seu celular do meu bolso.

– E eu também sei que você reconheceu o Fernandinho logo na primeira vez que você olhou. E deduzo que os dois logo deram um jeito de descer do ônibus, mas não pra falar da Kátia, e sim pra falar de vocês. Então teriam voltado pra casa, onde rolou a transa – segundo as palavras dele – mais quente que vocês já tiveram. Ele é tão atencioso, não? Até mandou uma mensagem pra você… Mas, oh, você nem chegou a ler. Mas não tem problema, eu leio pra você. – Ela está tão imóvel que parece que morreu em pé. – “E aí, gata? Estava com saudade. Quase um mês que a gente não transava, mas a de ontem valeu a espera. Foi a mais quente que a gente já teve. Depois me liga pra gente marcar alguma coisa… Beijo”.

Ponho o celular no balcão. Seus olhos lacrimejam.

– Mas ainda tenho uma dúvida: quem é mais vagabunda, a Kátia ou você?

O barman finalmente chega, e a primeira lágrima escorre em seu rosto pálido.

– O que gostariam?

– Um whisky cowboy pra mim, por favor. E pra ela uma morte bem lenta e dolorosa.

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